O vaso estava já cheio, pronto a
transbordar, recordações esganavam-se em anelo escoar. Surgiu a palavra,
o papel e a caneta que logo ali foram usadas para recordar ideias, pintar e
separar o grande emaranhado que flanava dentro da minha mente, ajudando a lutar
contra deletérios momentos.
Escrevi, recordei, diverti-me e
relembrei como terapia escrita em receita de senhor doutor. Cada cor, cada
esquina, cada árvore e cada acção está bem gravada porque eu já lá não estou
mais, se estivesse talvez desvalorizasse os momentos, se estivesse não me seria
permitido acreditar que tinha vivido tudo aquilo que neste livro é destapado por
vezes em vernáculo dizer.
Mas tal como penicilina,
o acto fez-me sofrer, chorar, saudoso dos que já partiram, feliz por lhes ter
pertencido.
Este é assim, um livro sofrido,
gostoso, um livro de alma onde se louva o simples do
simples onde se tacteia a memória perseguindo a sombra das minhas
recordações.
Histórias que estão estoriadas em novelos
coloridos, palavras e ideias compostas em bi-ling
em miscigenados dizeres e muitas delas vividas na primeira pessoa. Assim se
pinta África nos anos sessenta, assim se canta África nos anos setenta e assim
se chorou a Terra Mãe nos oitenta revivendo agora, em continuum, os presentes momentos. Assim, tento expulsar a dor
nestes pequenos retalhos contados de quem perdeu o seu regresso.
Raças, cores, ideologias? O que é isso
para quem só deseja apenas viver!
“Para
Além da Terra” é por
tudo isto um grito de revolta à contínua destruição do presente, à acção de
quem estragou o sonho de uma criança e um gáudio em louvor à aceitação daquilo
que afinal é sempre provisório, A VIDA.
José Cavalheiro Homem

Fios de sangue escorrem a Palavra que arquitecta a expiração oxigenada de José Cavalheiro Homem em PARA ALÉM DA TERRA...
ResponderEliminarCrónica a Crónica, o Zé solfeja a Pauta/"Mala de Papelão", desaguando em Substântivo-Próprio, adjectivado por cargas fortes de luz que retratam Paisagens, Afectos e Ironias...
Prosa-Poema d'Água, porque líquido e corrente e porque Elemento integrante das Lágrimas e da Vida...
Excerto:
"Na tenritude da minha idade, consegui gravar bem fundo em minha alma a vida e a influência de uma mulher.
Era um ser diferente que me marcou para todo o sempre como ferro em brasa em gado de qualidade. ... "
Em PARA ALÉM DA TERRA, Crónica:SOB A ASA D'UM ANJO